Coração partilhado

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
  1. Home
  2. /
  3. Notícias
  4. /
  5. Colunas
  6. /
  7. Coração partilhado

Memórias do Padre Zé

Padre José (de camisa branca) sai da piscina depois de receber o ‘batismo de Netuno’ (à direita), costume entre os marinheiros quando atravessam a Linha do Equador

Durante minha viagem como capelão dos emigrantes no navio italiano “Achille Lauro”, chegamos a Cape Town (Cidade do Cabo), África do Sul no dia 20 de setembro de 1971, depois de termos passado pelo Estreito de Gibraltar. Exatamente neste trajeto, ainda em pleno Oceano Atlântico, encontramos a Linha do Equador, uma linha imaginária responsável por dividir o globo terrestre em dois hemisférios: Sul e Norte. Os navegadores costumam festejar esta travessia com uma espécie de “Carnaval”, ao lado da piscina, em honra a Netuno, Deus mitológico dos mares e das águas. A festa consistia em discursos humorísticos, muita música com representantes das etnias presentes no navio e o chamado “Batismo” de antiga tradição marítima. Os primeiros a serem jogados na piscina pelos marujos, com roupas e calçados, eram os que exerciam algum cargo junto a tripulação. Como eu era capelão e comissário de bordo, fui um dos primeiros a ser jogado nas águas entre a algazarra de todos. Esta festa inesquecível aconteceu no dia 14 de setembro de 1971.

Saindo do porto de Cape Town no dia 22 de setembro de 1971, depois de dois dias e já no Oceano Índico Norte, encontramos um mar bastante agitado: o navio balançando de um lado pro outro, parecendo uma caixinha de fósforos num balde de água agitada, com altas ondas querendo engolir o navio. Ninguém podia sair da cabine, os corredores com cordas feitas corrimão e móveis amarrados. Rezar Missa? Impossível! Tudo escorregava do altar. Um jovem marujo napolitano que trabalhava, de noite, nas máquinas, vinha me implorar: “Zio Prete (Tio Padre), deixe-me ficar aqui porque estou com medo, sozinho, lá embaixo”. Mas, eu também estava com medo. Somente alguns jovens passageiros aventureiros ficavam sentados no chão do salão do convés para deslizar, de um lado para o outro, conforme o navio balançava. Eram as monções marítimas que demarcam um tipo de variação climática que ocorre na porção sul e sudeste da Ásia, que por isso também é chamada de Ásia das Monções.

Depois de uma semana navegando nesta experiência desagradável das monções e depois de um mês isolados do mundo, entre céu e mar, numa bela manhã, apareceu um pardal sentado no mastro principal. Foi a atração dos passageiros e da tripulação. Todos queriam ver! Os alto-falantes chamavam a atenção pra não ficarem no mesmo lado para não desequilibrar o navio: na proa e na popa, no estibordo e no bombordo havia gente olhando para o mastro, extasiada com o passarinho. Aí, passou conversa, de boca em boca, que a presença daquele passarinho significava que a terra não estava muito longe. De fato, após alguns dias, foi anunciado: “Terra a Vista” e o hino do navio foi lançado nos alto-falantes: “La nave blú, dall’ Europa all’ Austrália, per i mari ovunque va, all’ Achille I say good bye” (O navio azul, da Europa à Austrália, pelos mares onde vai, ao Aquiles (nome do navio) eu digo ‘até logo’). Todos os dias restantes, passei horas e horas sentado, sozinho, na proa, olhando aquela mancha no mar lá longe, que foi crescendo, crescendo e tomando forma… e eu sonhava acordado: TERRA DA ESPERANÇA para meus familiares e para tantos emigrantes! Terra que nos fez chorar de saudades e que também nos alegrou com a possibilidade de uma vida melhor! Terra que propiciou trabalho para meus tios e primos que ainda não conheço e vou conhecer logo! Terra que acolheu meu pai e meus irmãos para poderem sustentar minha vocação sacerdotal e missionária! Meu coração partilhado: sou maltês por nascimento, sou australiano por afeição ou afeto, sou brasileiro por opção. Uma mistura de sentimentos!

Apesar de a teoria que afirma que foram os portugueses que descobriram a Austrália, muitos historiadores acreditam que o primeiro avistamento registrado sobre o continente, assim como o primeiro desembarque, foi realizado pelo holandês Willem Janszoon em 26 de fevereiro de 1606. Apesar de ter traçado todo o litoral oeste do que seria a “New Holland” (Nova Holanda) em meados do século 17, o holandês não investiu em nenhuma tentativa de colonização. Por outro lado, o inglês James Cook navegou e mapeou toda costa leste da Austrália (terra australis incógnita, quer dizer, terra do Sul desconhecida) em 1770, reivindicada para o Reino Unido (Inglaterra). Alguns anos depois, as descobertas de James Cook abririam espaço para que uma nova colónia penal fosse formada. Se refere à Coroa Britânica, quando o capitão Arthur Philip conduziu a primeira frota a Port Jackson (Sydney), levando 759 criminosos ingleses no dia 26 de janeiro de 1788. A data se tornou o feriado nacional mais importante da Austrália.

Com a abertura da imigração a partir do século 19, a Austrália foi se tornando a potência que conhecemos hoje!

Monsenhor José Agius Monsenhor

Monsenhor José Agius Monsenhor

Compartilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

FOTO(S) DESTA MATÉRIA

VEJA TAMBÉM:

Colunas

Matando a Saudade

Memórias do Padre Zé Era o dia 5 de outubro de 1971 quando o navio “Achille Lauro” foi chegando no porto de Melbourne, onde eu

A Vida que Brota da Morte

Por Humberto Xavier Rodrigues O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. João

Colunas

Uma dica essencial

Entrelinhas – Por Carla Kühlewein Imagine que, em meio à correria frenética do dia a dia, uma criança resolva parar e lhe observar com insistência.

Colunas

A Marvel engana a gente nos trailers

Por Samuel M. Bertoco Na terça-feira (16) saiu o aguardado trailer do próximo filme do Homem-Aranha. Desde quando começou a pipocar informações sobre o longa,