Era uma vez um rio…

Sobrelinhas – por Carla Kühlewein

Escritores não cansam de nos surpreender. Quer ver mais um exemplo? (já citei vários nesta coluna). Você deve se lembrar do rompimento da barragem em Mariana, cidade de Minas Gerais, em 2015… Na ocasião, a cidade foi bem afetada, o Rio Doce e toda a fauna e flora ao seu entorno foram dizimados.

Restaram apenas montanhas de entulho, lama e rejeitos. Um ano depois da tragédia, a Editora Pulo do Gato procurou Leo Cunha para escrever um livro infantil que desse voz ao rio. Pra nossa sorte, ele aceitou o convite e fomos presenteados com uma obra linda, abrilhantada pelas ilustrações marcantes de André Neves.


Foi assim que nasceu “Um dia, um rio”, livro impecavelmente sensível, exemplo clássico do quanto texto e imagem podem dialogar e formar, juntos, uma coisa só: arte pura, para ser lida e apreciada com calma e várias vezes. A capa do livro já é um primor! O rio é personificado na figura de uma criança sob um fundo marrom (simbolizando a água barrenta) enquanto a quarta capa (aquela que fica na parte de trás do livro), traz a mesma personagem sob um azul vibrante. O contraste de cores cai como uma luva para representar morte e vida, demarcado no texto, na voz do próprio rio: ‘Eu era doce, hoje sou amargo’.

E pra quem ainda acha que Literatura Infantil é “coisa de criança”, aqui vão mais alguns versos pra sentir a vibração:


‘Meu leito virou lama,
meu peito, chumbo e cromo.
Minhas margens, tristeza.

Minha aldeia mora submersa dentro de mim.
Com lágrimas de minério,
vou sangrando até o mar.’

Depois dessa, talvez você se pergunte “Mas esse livro é mesmo para crianças?”. Pois é, não é porque a Literatura Infantil se dirige a elas que não possa nos dizer algo também. Afinal, literatura é feita de pessoas para pessoas, independentemente da idade. E aí? Vai conferir mais essa joia rara ou prefere ficar na curiosidade? (Depois não diga que não avisei…)

Carla Kühlewein é graduada em Letras Vernáculas e Clássicas (UEL), Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada (Unesp) e Doutora em Literatura e Vida Social (Unesp).

Carla Kühlewein

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