Imin-70 e a conversa entre “Bispo e Presidente”

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    O ano de 1978 era um ano muito importante para a Comunidade Japonesa no Brasil: a comemoração dos 70 anos de sua imigração para o Brasil. E Rolândia foi escolhida para sediar os respectivos festejos chamados IMIN 70. Pensei que a Paróquia não podia ficar alheia a um acontecimento tão significativo para a Colónia Japonesa, que tão bem se integra na vida social e religiosa de Rolândia. Seria até uma excelente oportunidade para fortalecer a já existente pastoral entre os nipônicos. A equipe da “Pastoral Nissei”, que eu havia formado, era integrada por Thuneo Higa, Mário Utiyama, Antônio Sassaki, José Fumiu Takano, Kenji Igarashi e Demétrio Nassu, os quais começaram a se movimentar para organizar uma missa solene de ação de graças no dia 18 de junho de 1978, a ser celebrada pelo Bispo Auxiliar de Londrina, Dom Luis Colussi. 

    O convite que eu havia elaborado, traduzido para a língua japonesa e distribuído para as famílias da Colónia, assim dizia: “A Paróquia de Rolândia, desejando homenagear a Colónia Japonesa no ensejo das comemorações do 70º aniversário da Imigração Nipônica no Brasil – IMIN 70, fará celebrar na Igreja Matriz São José, no dia 18 de junho às 18 horas, uma Missa de ação de graças a ser rezada em português e japonês e ainda apresentação de cânticos e danças rituais japonesas pelos alunos das escolas nipônicas locais. Convidamos Vossa Senhoria e família a participarem desta celebração cristã”. A Colônia Japonesa respondeu positivamente a este apelo. O espaçoso templo já estava superlotado quando iniciamos a procissão da entrada na seguinte ordem: coroinhas nisseis, 14 jovens nisseis trajando “hapí” e “quimono”, leitores, sacerdotes e o Bispo Dom Luis Colussi, o qual, em sua homilia, “enalteceu os valores religiosos dos japoneses e sua perfeita integração no ambiente brasileiro. Nada mais normal –disse ele- para a Igreja Católica, já que uma das suas grandes tarefas é a integração dos povos num esforço de promover a fraternidade universal. Aliás, como o fazem todas as grandes religiões, inclusive a Budista professada pela maioria do povo japonês”.

    Houve leituras bíblicas em língua japonesa e uma comovente mensagem, também em japonês, pelo Padre Pedro Miyamoto, da Pastoral Nipo-Brasileira da Arquidiocese. Muito significante foi a cerimônia do ofertório quando cinco meninas nisseis, trajando quimono, dançaram no presbitério uma dança ritual e, a seguir, os 14 jovens levaram para o altar os instrumentos e os frutos do trabalho agrícola, atividade a que mais se dedicaram os imigrantes japoneses. Um grupo de 70 crianças nisseis, postadas atrás do altar, cantou o “hino ao IMIN 70” e a canção japonesa “Nemuno Kino Uta”, composta pela Princesa Michiko. Houve ainda a participação dos Padres Luis Bezzina e Cônego Luis Gonzaga Ribeiro e também de Lúcia Reiko Kikuchi, a qual traduzia para o japonês o desenrolar da celebração litúrgica.

    Dois dias depois desta parte religiosa, no dia 20, foi um dia memorável e extraordinário. Rolândia recebeu a visita do presidente da República do Brasil, Ernesto Geisel, e a dos Príncipes Herdeiros do Japão. Velhinhos japoneses arcados pelo peso dos anos, vindos dos mais diversos recantos do Paraná e de São Paulo, membros da Colônia Nipônica das mais diversas idades e das mais diversas profissões, desde lavradores até profissionais liberais, descendentes da primeira, segunda e terceira gerações depois da chegada dos primeiros imigrantes em 1908, mil e quinhentas senhoras trajadas em seus quimonos, milhares de bandeirinhas e muitos cumprimentos e reverências num ambiente de festa no amplo jardim japonês denominado “Centro Agrícola de Rolândia”, atual Museu Japonês. No palanque oficial estavam as duas figuras amadas como divindades por muitos japoneses: o Príncipe Akihito e sua esposa Princesa Michiko, herdeiros imperiais do Japão, o Presidente do Brasil Ernesto Geisel e esposa, o Governador do Paraná Jaime Canet e esposa, o futuro Governador Ney Braga, o Ministro das relações exteriores Antônio Azeredo da Silveira, o Ministro Chefe do gabinete militar General Moraes Rego, o Arcebispo de Londrina Dom Geraldo Fernandes e muitas outras autoridades do Brasil e do Japão. No local da festa, por uma feliz sugestão do Deputado Antônio Ueno, presidente do IMIN 70, realizou-se um breve ofício ecumênico: católico-protestante-budista antes da sequência da programação com os discursos oficiais.

    Convém relembrar que era época de grandes tensões entre Igreja e Estado brasileiro, entre Conferência Nacional dos Bispos e Governo Federal devido às restrições à liberdade de expressão impostas pela ditadura militar. Muitos religiosos tinham sido advertidos ou presos por algumas palavras que teriam dito contra as atitudes do regime. E muitos Bispos falavam abertamente em defesa dos direitos humanos desrespeitados. Nesta situação, em sua condição de Vice-Presidente da C.N.B.B., Dom Geraldo Fernandes devia estar no palanque lado a lado do Presidente e não ia poder descer até o altar colocado no campo para fazer a oração. Ele ligou para mim véspera e me disse: “Pe. José, amanhã você vai fazer a oração diante das autoridades em meu lugar porque eu vou estar no palanque e preciso achar um momento oportuno para trocar uma conversa com o Presidente e interceder por tantas pessoas que estão sofrendo com estes desmandos da ditadura. Faça esta oração, nem que seja um Pai-nosso”. De fato, a conversa de Dom Geraldo com o Presidente valeu porque, dias depois, foram se amenizando as atitudes hostis.

    Ao lado do monge Budista e do pastor Protestante, falei assim: “Meus irmãos e meus amigos, neste sublime e solene momento de confraternização e de gratidão, invoquemos a proteção e a bênção de Deus nosso Pai sobre suas Excelências, o Sr. Presidente da República e esposa, sobre suas Altezas Imperiais o Príncipe Akihito e Princesa Michiko, sobre as demais distintas autoridades aqui presentes, sobre as duas nações amantes da Paz do Brasil e do Japão e sobre os imigrantes japoneses e seus descendentes integrados harmoniosamente nesta terra maravilhosa, rezando juntos, com amor e confiança a oração da fraternidade humana que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: Pai Nosso que estais…”.

    Fui também convidado pelo Governador do Estado, juntamente com os demais 220 convidados, a participar do banquete oficial oferecido no Rolândia Country Club.

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